Fratura de quadril: por que a reabilitação rápida é o que faz diferença na vida dos idosos?
Estudo aponta que 1 em cada 3 idosos morre em até 12 meses após sofrer fratura de quadril, normalmente devido a complicações evitáveis

As fraturas de quadril em idosos estão entre os eventos mais preocupantes em saúde pública. A estimativa, segundo a International Osteoporosis Foundation (IOF), é que, globalmente, ocorrerão cerca de 6 milhões de fraturas de quadril por ano até 2050, triplicando os números atuais.
Com o aumento da longevidade no Brasil, surge o alerta para as quedas, que representam 62% das lesões não fatais em pessoas com mais de 60 anos, segundo Ministério da Saúde. Ainda de acordo com a entidade, 90% das fraturas de quadril em idosos têm como causa quedas da própria altura, muitas vezes dentro de casa.
Francimar Ferrari, fisioterapeuta e coordenador do setor de Fisioterapia da Clínica Florence Recife, reforça o cuidado dentro do ambiente doméstico. “A fratura de quadril em idosos geralmente ocorre após quedas simples dentro de casa, especialmente ao levantar da cama, ao se desequilibrar em tapetes soltos, pisos molhados ou quando há pouca iluminação”, diz o especialista.
Esse tipo de fratura em idosos é ocasionado por uma combinação de fatores, como a fragilidade do osso devido à osteoporose (doença que causa perda de massa óssea, deixando os ossos mais frágeis), perda de força e volume da musculatura do idoso, diminuição dos reflexos — que reduz a capacidade de proteger o corpo durante a queda —, doenças neurológicas e cardíacas, além do uso de várias medicações ao mesmo tempo, que aumentam o risco de desequilíbrio e quedas. “Condições como a osteoporose tornam o osso mais frágil, fazendo com que uma queda de baixa energia seja suficiente para causar a fratura. Ou seja, até mesmo quedas leves podem resultar em fraturas graves no paciente”, afirma Francimar.
Mas por que o osso do quadril é tão fraturado?
Apesar de o corpo como um todo sofrer os principais fatores que levam ao aumento do risco de quedas e, consequentemente, de fraturas, o quadril conta com características que tornam a região mais vulnerável.
“A região do quadril, especialmente o colo do fêmur, é uma área onde o osso tende a se tornar mais frágil ao envelhecer. Com a osteoporose, temos a redução da densidade óssea, mas essa perda não ocorre de forma uniforme em todo o esqueleto. O colo do fêmur, por exemplo, é formado por um tipo de osso com alta proporção de trabéculas, pequenas ‘colunas’ internas que sustentam a arquitetura óssea, que se reorganizam e afinam com o passar dos anos, tornando essa região especialmente vulnerável”, diz o fisioterapeuta.
Além disso, o quadril é também ponto de impacto direto quando ocorre uma queda lateral, que é o tipo de queda mais comum em pessoas idosas. “Diferente de um adulto mais jovem, o idoso geralmente não consegue proteger a queda colocando a mão ou girando o tronco rápido o suficiente. Ou seja, o corpo cai de lado, diretamente sobre a cabeça do fêmur, concentrando a energia do impacto exatamente onde o osso está mais frágil”, alerta Francimar.
“Outro fator é que o quadril é uma articulação de suporte de peso. Quando há uma fratura nessa região, o idoso não consegue colocar o pé no chão sem sentir dor intensa, o que prejudica a recuperação”, complementa o especialista.
Reabilitação é a chave
Estudo publicado no Journal of Bone and Joint Surgery aponta que 1 em cada 3 idosos morre em até 12 meses após sofrer fratura de quadril, normalmente devido a complicações evitáveis como infecções pulmonares, tromboembolismo e perda funcional abrupta.
A reabilitação após fratura no quadril atua na redução dessas e outras complicações, como úlceras por pressão e declínio cognitivo. Além disso, o processo reabilitador trabalha a força, o equilíbrio e o preparo físico do idoso, prevenindo novas quedas e promovendo qualidade de vida após a alta hospitalar. “Sem reabilitação, muitos idosos evoluem para perda definitiva de autonomia. Quando a recuperação não envolve fortalecimento, treino de equilíbrio e avaliação do ambiente domiciliar, o idoso mantém o mesmo padrão de risco que levou à primeira queda, aumentando a chance de uma nova fratura”, afirma Francimar.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a mobilização precoce em até 48 horas após a cirurgia de quadril reduz em 20% o risco de mortalidade e acelera o retorno às atividades da vida diária. Apesar do dado, a reabilitação não se limita ao paciente que precisou realizar a cirurgia. “A reabilitação é indicada para todos os idosos que sofreram fratura de quadril, independentemente de terem sido submetidos à cirurgia ou não. A perda de mobilidade após o trauma é inevitável, e, sem intervenção, o risco de complicações e perda funcional é muito elevado”, alerta Francimar. “A reabilitação deve começar o mais precocemente possível, muitas vezes ainda durante a internação, devendo ser um trabalho progressivo e, principalmente, multidisciplinar”, finaliza.