Futuro do cuidado ao idoso no Brasil é tema de entrevista com Lara Sorensen, diretora executiva do Vivaz
Em 2026, a engenheira foi uma das 50 lideranças femininas selecionadas para o SW50 Brasil, que reconhece e desenvolve mulheres que estão transformando diferentes setores no país, incluindo o futuro do cuidado ao idoso e da saúde no Brasil..
Pensar no futuro da saúde nem sempre precisa começar pela tecnologia. Muitas vezes, um modelo de cuidado melhor pode ser o pontapé da discussão. No caso do futuro do cuidado ao idoso, vale olhar para as previsões para os próximos anos do sistema de saúde: até 2070, o Brasil deve ter mais de 75 milhões de idosos e, segundo levantamento do IEPS de 2023, eles vivem mais, mas são acometidos cada vez mais de doenças crônicas. Esse cenário exige do sistema algo que vai além do atendimento tradicional, como coordenação do cuidado, acompanhamento contínuo e integração entre diferentes profissionais e serviços.
É nesse contexto que surge o Vivaz, programa de cuidados personalizados para idosos, que atua em parceria com operadoras de saúdee tem como base a Clínica Florence, em Salvador e Recife. Voltado para novos modelos de cuidado ao idoso, o programa é liderado por Lara Filadelfo Sorensen, cofundadora e diretora executiva do Vivaz, que foi uma das 50 lideranças femininas selecionadas para o SW50 Brasil, iniciativa do Santander em parceria com a London School of Economics que reconhece e desenvolve mulheres que estão transformando diferentes setores no país.
Nesta entrevista, Lara fala sobre o que precisa mudar no cuidado ao idoso, os gargalos reais da coordenação do cuidado e por que o futuro do cuidado ao idoso depende de modelos que funcionem para o paciente, para a família e para o sistema.
Como você enxerga o futuro do cuidado ao idoso no Brasil?
O cuidado ao idoso vai ter que se transformar, se reinventar e não só no Brasil, porque é um problema global. O modelo atual, do ponto de vista financeiro, já não se sustenta. Mas, além disso, as famílias estão cada vez menores ao mesmo tempo em que as pessoas vivem mais. Muitas vezes, essas pessoas nem se prepararam para viver tanto. E você tem uma geração no meio do caminho, sobrecarregada, cuidando ao mesmo tempo de filhos que ainda não são independentes e de pais que estão vivendo mais. É uma pressão enorme dos dois lados.
Mas também é importante não tratar o envelhecimento como uma coisa única. A gente tende a associar idoso à fragilidade, e são coisas completamente diferentes. Estamos falando de uma faixa que vai dos 60 aos 100, 110 anos. Temos pacientes no Vivaz com mais de 108 anos, ainda com autonomia e muita vitalidade. São perfis e necessidades completamente diferentes. O futuro vai precisar de modelos mais inteligentes, mais coordenados, que individualizam o cuidado para cada pessoa e respondam não só à parte clínica, mas também às dimensões econômica e social do envelhecimento. Além disso, vai envolver apoio às famílias, uso racional de recursos, novos modelos de moradia, redes de apoio. Ou seja, é um problema real que só tende a crescer e que exige muita coisa nova acontecendo.
Coordenação do cuidado ainda esbarra na execução
Quais são os principais desafios hoje quando falamos em coordenação do cuidado?
Para mim, o principal desafio está na execução. O modelo em si de cuidado preventivo, longitudinal, sem fragmentação, que coordena os diferentes atores do sistema, não é nenhuma novidade. É consenso que isso traz economia e melhores desfechos para o paciente. Na prática, o problema é fazer funcionar.
As engrenagens do sistema ainda estão desenhadas para operar no modelo antigo. A forma de pedir uma autorização, os fluxos do dia a dia… tudo foi projetado para uma lógica que não é essa. Mudar isso exige muito alinhamento de intenções, alinhamento de incentivos e, principalmente, confiança real entre as partes. Não dá para microgerenciar esse modelo. É um trabalho a quatro, seis mãos, em que cada um precisa fazer a sua parte com responsabilidade, autonomia e visão de longo prazo.
Tem também um desafio cultural muito grande. A gente está acostumado com uma lógica de saúde muito reativa: a pessoa só busca atendimento quando já tem um evento agudo, quando já sente alguma coisa. Não temos tradição de prevenção, de ter um guardião do cuidado, um ponto de referência contínuo. Isso vale para os pacientes, mas também para os próprios profissionais que navegam nesse sistema. Por isso, precisa de educação, de mais comunicação entre as partes, de uma visão integrada sobre o paciente, não um monte de pedacinhos com cada especialista. Tem muito para amadurecer, mas também muito espaço para coisas novas acontecerem.
Vivaz propõe um modelo mais ativo e longitudinal
Onde você vê o Vivaz como um modelo inovador de cuidado ao idoso dentro desse cenário?
A principal inovação do Vivaz está no modelo de intervenções que a gente propõe. A gente olhou para onde o sistema falhava e desenhou alavancas específicas para cada um desses pontos de falha. Nossa proposta não é uma simples navegação do paciente pela rede, mas sim coordenar ativamente o cuidado, com olhar clínico, especializado e longitudinal, inclusive nos momentos mais críticos da jornada. Que é exatamente onde modelos mais simples costumam falhar.
Além disso, quando o paciente interna, por exemplo, muitos programas perdem esse vínculo. No Vivaz, não. A gente atua também nesse momento para que não haja nenhuma interrupção no modelo de cuidado e isso faz diferença justamente porque é quando o paciente está mais frágil, mais vulnerável, e quando normalmente há maior ineficiência no uso dos recursos.
Nesses dois anos e meio de operação, primeiro em Recife e depois em Salvador, a gente já viu que o modelo funciona. Temos NPS acima de 90%, alto engajamento nas linhas de cuidado, o que mostra que o paciente tem vínculo real com a gente. E vínculo é a espinha dorsal de qualquer coordenação de cuidado. Ainda assim, temos desafios para escalar: integração de dados, ciclos de adoção mais longos com as operadoras, quebras de paradigma que precisam acontecer. Sou otimista, porque é justamente essa pressão sobre o sistema que abre espaço para modelos como o Vivaz, modelos ganha-ganha, que beneficiam o paciente, a família e o sistema ao mesmo tempo.
Florence como apoio na construção de novos modelos de cuidado
Na sua visão, qual o papel de iniciativas como a Florence na construção desses novos modelos de cuidado?
A Florence tem um papel muito relevante, primeiro pela história, por ter trazido o modelo de cuidado de transição e hospice para o Nordeste, o que já foi uma inovação em si. Além disso, pela filosofia de cuidado que ela carrega: foco em excelência, construção de vínculo humano, visão institucional de longo prazo. Isso aparece em cada detalhe, desde o prontuário afetivo até como se chama os cuidadores, o jardim, o ambiente. É um modelo especial de cuidado.
No caso do Vivaz, a relação é totalmente complementar. O Vivaz já nasceu integrado à Florence: utilizamos a estrutura da Florence como uma espécie de retaguarda assistencial, um hospital secundário em situações específicas. Isso nos permite manejar pacientes mais frágeis e de maior complexidade no nível adequado, evitando, por exemplo, internações em UTI que não seriam necessárias. No Brasil, a gente não tem muito esse hábito: quando precisa de alguma coisa, já recorre diretamente ao pronto-socorro do hospital. Dessa forma, a Florence nos oferece essa peça que normalmente falta no sistema, um modelo intermediário entre a casa e a alta complexidade. É muito promissor na construção de ecossistemas de cuidado mais inteligentes.
Tecnologia e cuidado humano precisam caminhar juntos
Nesse contexto, como tecnologia e cuidado humano podem se complementar na jornada de cuidado ao idoso?
Para mim, tecnologia é um meio, não um fim. Sou totalmente a favor dela (pessoalmente adoro), mas é muito claro que ela não resolve sozinha os problemas que a gente tem na saúde. Ela ajuda, mas não resolve tudo.
Ela ajuda a reduzir trabalho repetitivo, reduzir atrito operacional, potencializar o trabalho dos profissionais, organizar informação, apoiar a tomada de decisão. Por exemplo, se a gente usa uma ferramenta para transcrever a consulta e o médico não precisa fazer isso, ele converte aquele tempo para o contato humano com o paciente e melhora a qualidade da interação, o vínculo. Para o próprio paciente, dispositivos vestíveis permitem monitorar em casa sem precisar se deslocar. No Vivaz, toda a nossa plataforma se conecta com o paciente via WhatsApp, ele não precisa instalar nada. A gente consegue fazer teleconsulta, acompanhamento, tudo de forma acessível.
Ao mesmo tempo, tecnologia não substitui vínculo, empatia, julgamento clínico. A gente costuma brincar que tem que ter um humano fechando essa cadeia, por mais tecnologia que entre no processo. Ela é para apoiar e para dar escala, nunca para substituir o que é essencialmente humano no cuidado.
Lara Filadelfo Sorensen é cofundadora e diretora executiva do Vivaz, programa de cuidados personalizados para idosos desenvolvido em parceria com operadoras de saúde na Clínica Florence, em Recife. Sua atuação está ligada à construção de novos modelos e ao futuro do cuidado ao idoso no Brasil. Em 2025, foi selecionada entre as 50 lideranças femininas do SW50 Brasil, iniciativa do Santander com a London School of Economics.