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Impactos emocionais das perdas funcionais na reabilitação

Florence
Hospital de Transição
Pós UTI
Psicologia
Reabilitação
Reabilitação Intensiva
Reabilitação Pós-UTI
Recife
Salvador

Os impactos emocionais das perdas funcionais incluem tristeza, frustração, ansiedade, medo, impotência e processos de luto pela autonomia, pelos papéis e pela imagem de si. A intensidade depende menos da limitação física e mais do significado que aquela perda tem na vida da pessoa.

Profissional de saúde segura as mãos de paciente em gesto de acolhimento durante atendimento.
Reconhecer os impactos emocionais das perdas funcionais faz parte do cuidado: escutar o que aquela perda representa é tão necessário quanto tratar a função.. Imagem: Divulgação Florence.

Uma pessoa que sempre caminhou sozinha agora precisa de ajuda para sair da cama. Alguém que cuidava da própria casa passa a depender de outra pessoa para tomar banho. Um profissional que passou anos trabalhando começa a se perguntar se conseguirá retornar à mesma atividade. O que acontece emocionalmente quando o corpo deixa de responder da maneira como sempre respondeu?

A perda funcional não representa apenas uma mudança física. Para muitos pacientes, ela também significa uma ruptura na rotina, na autonomia, nos papéis que desempenhavam e, em alguns casos, na própria percepção de quem são.

Em um hospital de transição, onde o cuidado está diretamente relacionado à recuperação e à reabilitação, compreender essa dimensão emocional é fundamental. Afinal, recuperar uma função não significa apenas voltar a realizar determinado movimento: pode significar recuperar possibilidades de vida.

Quando a independência muda

Estamos acostumados a realizar diversas atividades sem pensar sobre elas. Caminhar, tomar banho, comer, vestir-se, trabalhar ou sair de casa fazem parte da vida cotidiana. Quando uma doença, um trauma ou outra condição de saúde modifica essas capacidades, aquilo que antes era automático passa a exigir esforço, adaptação e, muitas vezes, a ajuda de outra pessoa.

Entre os impactos emocionais das perdas funcionais mais frequentes estão:

  • tristeza e frustração diante da mudança;;
  • ansiedade e medo em relação ao futuro;
  • sensação de impotência;
  • uma preocupação que nem sempre é verbalizada: “E se eu não voltar a ser como antes?”.

A pergunta pode acompanhar o paciente durante todo o processo de reabilitação. A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), da Organização Mundial da Saúde, propõe justamente uma compreensão mais ampla da funcionalidade: ela não está restrita às funções do corpo, mas envolve também atividades, participação e a interação da pessoa com o ambiente. Isso significa que uma mesma limitação física pode produzir impactos muito diferentes dependendo da história, dos recursos, dos vínculos e dos projetos de cada pessoa.

A perda funcional também pode ser uma experiência de luto

Quando falamos em luto, geralmente pensamos na perda de uma pessoa querida. Entretanto, também podemos vivenciar processos de luto diante da perda de capacidades, papéis e possibilidades que eram importantes para nossa vida. O paciente pode estar elaborando a perda da autonomia, da independência, da capacidade de trabalhar, de cuidar de alguém ou até mesmo de uma determinada imagem que possuía de si.

Esse processo não acontece da mesma maneira para todos: algumas pessoas conseguem se adaptar mais rapidamente, outras precisam de mais tempo para compreender e elaborar as mudanças.

Por isso, uma pergunta importante para a Psicologia não é apenas “qual função foi perdida?”, mas também: “O que essa perda representa para essa pessoa?”.

Para alguém, pode significar conseguir tomar banho sozinho. Para outro, pode representar voltar para o trabalho. Para outro, ainda, pode significar simplesmente conseguir sair de casa e encontrar os amigos. A função tem um significado que ultrapassa o corpo.

Quando precisar de ajuda também modifica a forma de se perceber

A dependência pode ser uma das experiências mais difíceis relacionadas à perda funcional. Precisar de ajuda para atividades íntimas ou básicas pode provocar constrangimento, vergonha, sensação de incapacidade ou medo de se tornar um peso para a família. Em alguns casos, a pessoa passa a se perceber principalmente a partir daquilo que não consegue mais fazer.

Esse processo pode afetar a autoestima e a percepção de autonomia. Afinal, durante grande parte da vida, aprendemos a associar independência à capacidade de escolher, decidir e realizar. Quando essa possibilidade é reduzida, torna-se necessário reconstruir outras formas de autonomia.

E autonomia não significa necessariamente fazer tudo sozinho. Também pode significar:

  • participar das decisões sobre o próprio cuidado;
  • escolher entre possibilidades;
  • expressar preferências;
  • reconhecer aquilo que ainda é possível fazer.

Reabilitar também é lidar com o que mudou

No hospital de transição, o paciente participa de um processo que envolve diferentes profissionais e diferentes dimensões do cuidado. Enquanto a equipe trabalha para recuperar força, mobilidade, comunicação, alimentação e outras funções, o paciente também precisa lidar com as mudanças que o adoecimento produziu em sua vida.

Nesse percurso, podem aparecer medo de fracassar, desmotivação, resistência, tristeza ou dificuldade de se envolver com a reabilitação. Essas manifestações não devem ser compreendidas simplesmente como falta de vontade. Por trás delas, pode existir o medo de não conseguir, a frustração com a própria evolução, a comparação com aquilo que o paciente era antes ou até mesmo a dificuldade de aceitar uma condição que ainda está sendo elaborada emocionalmente.

É nesse espaço que a Psicologia pode contribuir.

O trabalho psicológico não consiste apenas em reduzir sintomas de ansiedade ou tristeza.
Também envolve compreender os significados atribuídos à perda funcional, favorecer a expressão emocional, trabalhar estratégias de enfrentamento e ajudar o paciente a construir uma relação possível com sua nova realidade.

E quando não é possível voltar a ser como antes?

Essa talvez seja uma das questões mais delicadas da reabilitação.

Nem sempre recuperar significa voltar exatamente ao estado anterior. Em alguns casos, será possível recuperar determinada função. Em outros, será necessário aprender novas maneiras de realizar atividades, utilizar recursos de apoio, reorganizar a rotina ou estabelecer novos objetivos.

Isso não significa desistir da recuperação: significa reconhecer que reabilitação também pode envolver adaptação.

O objetivo não precisa ser simplesmente retornar à pessoa que existia antes do adoecimento, pode ser ajudar o paciente a construir possibilidades de vida a partir da
pessoa que ele é agora.

A esperança também pode mudar ao longo desse processo. Inicialmente, pode estar relacionada à recuperação completa. Depois, pode encontrar espaço em pequenas conquistas: conseguir ficar em pé, alimentar-se sozinho, voltar para casa, participar de uma atividade familiar ou recuperar alguma independência.

Reconhecer essas mudanças não significa diminuir a esperança, mas permitir que ela encontre possibilidades concretas dentro da realidade de cada paciente.

A família também vivencia essa mudança

A perda funcional não transforma apenas a vida do paciente: ela também pode modificar a dinâmica familiar.

Quando alguém que antes era independente passa a precisar de cuidados, novos papéis podem surgir: filhos podem assumir funções que antes pertenciam aos pais, companheiros podem se tornar cuidadores. A rotina familiar pode precisar ser reorganizada.

Junto com o cuidado, podem aparecer preocupação, medo, culpa, sobrecarga e dificuldades para compreender até onde ajudar sem retirar do paciente aquilo que ele ainda consegue fazer. Por isso, a família também precisa ser incluída no processo de reabilitação.

Cuidar não significa fazer tudo pelo outro: em muitos momentos, significa oferecer suporte suficiente para que ele possa continuar exercendo sua autonomia.

Cuidar da função sem esquecer a pessoa

A funcionalidade pode ser avaliada por escalas, testes e indicadores clínicos, instrumentos fundamentais para acompanhar a evolução do paciente. Mas existe uma dimensão que nenhum instrumento consegue medir completamente: o significado que aquela perda possui na vida daquela pessoa.

Por isso, cuidar de alguém em processo de reabilitação também significa perguntar sobre seus medos, expectativas, relações, projetos e aquilo que considera importante preservar. A recuperação pode começar no corpo, mas não termina nele.

Reabilitar também pode significar ajudar uma pessoa a reconstruir sua autonomia, sua identidade e sua perspectiva de futuro diante de uma vida que, depois do adoecimento, talvez precise ser vivida de uma maneira diferente.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “o que esse paciente conseguirá recuperar?”, mas também: “Que possibilidades de vida podemos ajudá-lo a construir a partir daquilo que permanece?” É nesse espaço entre a perda, a adaptação e a possibilidade que a reabilitação também se torna um processo de reconstrução subjetiva.

Perdas funcionais e apoio psicológico em Recife e Salvador

Nas unidades da Florence em Recife (PE) e Salvador (BA), o acompanhamento psicológico integra o plano de reabilitação do hospital de transição, com atenção ao paciente e à família. Saiba mais.

Psicólogo da Florence, com atuação clínica e hospitalar, especialista em Terapia Intensiva pela residência multiprofissional do Real Hospital Português/UFPE

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