Reserva fisiológica: por que músculos fortes podem fazer diferença durante uma internação na UTI
Especialista explica como atividade física e condicionamento corporal podem impactar recuperação, reabilitação e funcionalidade após uma doença grave

Quando alguém inicia uma atividade física, normalmente os objetivos mais citados envolvem saúde, qualidade de vida ou estética. Mas, cada vez mais, especialistas têm chamado atenção para um conceito que vem ganhando espaço nas discussões sobre saúde e longevidade: a importância de manter uma boa reserva fisiológica.
Na prática, isso significa preparar o corpo para enfrentar situações extremas, como doenças graves, cirurgias complexas e internações prolongadas em unidades de terapia intensiva.
Pessoas fisicamente ativas tendem a apresentar melhor capacidade de enfrentar períodos de grande estresse orgânico, especialmente durante uma internação na UTI, quando o organismo sofre impactos importantes relacionados à imobilidade, inflamação, sedação, ventilação mecânica e perda acelerada de massa muscular.
“O músculo tem sua estabilidade por meio do uso. Quando a pessoa fica muito tempo acamada devido ao processo de adoecimento, lidando muitas vezes com inflamação, sedação, ventilação mecânica e recusa alimentar, o organismo vive um estado de estresse muito grande. Desde o início da internação, o corpo entra em catabolismo, quando ele ‘gasta’ o músculo de forma mais rápida”, explica Wagner Reis, médico paliativista da Clínica Florence Recife.
O que é reserva fisiológica?
A chamada reserva fisiológica pode ser entendida como uma capacidade extra que o organismo desenvolve para enfrentar situações de grande exigência física.
Quanto melhor o condicionamento físico e a massa muscular de uma pessoa, maior tende a ser sua capacidade de tolerar agressões severas ao organismo, como infecções graves, traumas, cirurgias e longos períodos de internação.
“Quem tem mais massa muscular tem, consequentemente, melhor condicionamento físico e maior reserva funcional. Isso ajuda o corpo a lidar com todo o processo de adoecimento, como se o organismo tivesse um fôlego fisiológico para enfrentar a doença, a internação e alcançar melhor reabilitação ao sair desse quadro”, destaca Wagner Reis.
O conceito ganhou ainda mais força após a pandemia da Covid-19, quando profissionais de saúde passaram a observar diferenças importantes entre pacientes fisicamente ativos e sedentários durante internações graves.
Como a internação na UTI impacta a musculatura?
Durante uma internação prolongada, especialmente em terapia intensiva, a perda muscular acontece de forma acelerada.
Além da fraqueza física, essa perda impacta diretamente atividades básicas do dia a dia e pode comprometer a recuperação funcional após a alta hospitalar.
“Dificuldades para sentar, se levantar, tomar banho. Enfim, a perda da autonomia é um atravessamento importante da fraqueza pós internação”, afirma o especialista.
Segundo Wagner Reis, o impacto da perda muscular não acontece apenas nos músculos relacionados à mobilidade.
“A perda muscular não é centralizada. Ela acontece em todo o corpo e pode atingir a musculatura da deglutição e a musculatura respiratória. Há casos em que o paciente tem condição pulmonar de sair da ventilação mecânica, mas ainda permanece dependente dela por causa da fraqueza muscular”, complementa.
Esse processo pode dificultar a reabilitação e prolongar o tempo de recuperação após a internação.
Atividade física pode ajudar na recuperação após uma doença grave?
A prática regular de atividade física contribui para fortalecimento muscular, melhora da capacidade cardiorrespiratória e equilíbrio metabólico, fatores que ajudam o organismo a enfrentar situações críticas com mais reserva funcional.
Além disso, exercícios realizados de forma equilibrada também influenciam diretamente o sistema imunológico e a regulação inflamatória do corpo.
Apesar disso, o especialista reforça que manter uma rotina ativa não representa garantia de recuperação rápida ou ausência de complicações.
“É importante dizer que isso não é uma garantia. Uma rotina de atividade física não vai assegurar uma internação curta. O que podemos dizer com mais precisão é que um corpo mais treinado tende naturalmente a entrar em uma doença grave com mais reserva e possui um melhor ponto de partida para se recuperar”, alerta Wagner Reis.
Não é preciso ser atleta para obter benefícios
Os benefícios da atividade física para a saúde e para a recuperação funcional não estão restritos a atletas ou pessoas com alta performance esportiva.
Caminhadas, musculação, exercícios aeróbicos e atividades adaptadas à realidade de cada pessoa já podem contribuir significativamente para melhorar o condicionamento físico, preservar massa muscular e fortalecer a capacidade funcional ao longo do tempo.
Mais do que desempenho, o conceito de reserva fisiológica reforça a importância de construir um organismo mais preparado para enfrentar os desafios que podem surgir ao longo da vida, inclusive durante períodos de adoecimento e recuperação.
Manter o corpo ativo também é uma estratégia de cuidado
A recuperação após uma internação grave envolve diferentes aspectos físicos, funcionais e emocionais. Ter uma boa reserva fisiológica pode favorecer esse processo e contribuir para uma reabilitação mais eficiente no pós internação.
Nesse contexto, hábitos como atividade física regular, fortalecimento muscular e cuidado contínuo com a saúde deixam de estar relacionados apenas à qualidade de vida e passam também a representar uma estratégia importante de proteção funcional diante de situações críticas.