Síndrome pós-UTI: o que é?
A síndrome pós-UTI (PICS, Post Intensive Care Syndrome) manifesta-se em três frentes: perda de força muscular, fraqueza da musculatura respiratória e perdas cognitivas e psicológicas — e também afeta familiares e cuidadores.

O internamento em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é cercado de muitas incertezas e ansiedade, tanto para o paciente quanto para os familiares. O paciente crítico pode seguir dois caminhos distintos: sobreviver à fase crítica da doença e conseguir receber alta da unidade ou vir a falecer durante o internamento.
Durante anos a maior preocupação era tratar os pacientes para que eles não falecessem, sem uma atenção direcionada para o seguimento pós-UTI. Muitos apresentam perdas funcionais importantes, seja uma dificuldade de se levantar e deambular sem auxílio, seja um déficit de atenção e memória, ou até uma incapacidade completa do autocuidado.
Perdas essas que impactam na capacidade de trabalho dos pacientes. Apenas uma parcela deles consegue retomar seus empregos realizando as mesmas atividades, ou até atividades mais complexas, após a alta hospitalar.
Quais são os fatores de risco da síndrome pós-UTI?
A síndrome pós-UTI, Post Critical Care Syndrome (PICS), representa essa perda funcional induzida pela enfermidade crítica aguda. Ela é causada por vários fatores complexos e interligados, desde o nível de funcionalidade do paciente antes do quadro crítico, passando pela enfermidade aguda e pelos cuidados durante o internamento na UTI.
Nesse contexto, podemos agrupar os fatores de risco em três grandes grupos:
- Fatores não modificáveis — relacionados às condições clínicas do paciente antes do internamento na unidade:
seu grau de funcionalidade e independência, sua força, massa muscular, sua reserva funcional e suas comorbidades (hipertensão, diabetes, tabagismo). - Fatores potencialmente modificáveis — relacionados à gravidade do paciente durante o internamento na UTI:
a necessidade de ventilação mecânica, de uso de bloqueador neuromuscular, drogas vasoativas e o tempo de internamento na UTI; - Fatores modificáveis — diretamente relacionados à assistência e focados na reabilitação mais precoce, com redução das perdas funcionais.
Então, quanto mais dependente e mais frágil for o paciente antes do internamento, quanto mais grave for o quadro clínico e quanto mais tardio for o início da reabilitação, maior o risco de desenvolver a síndrome pós-UTI.
Os três segmentos de perda funcional
Para estratificar melhor as perdas funcionais, subdividimos três segmentos::
- Perda de força muscular — dificuldade de deambulação, redução global da força e dificuldade no autocuidado;
- Fraqueza da musculatura respiratória — pacientes que apresentam dificuldade no desmame da ventilação mecânica ou até mesmo redução da tolerância aos esforços;
- Perda cognitiva e psicológica — déficit de atenção ou memória, incapacidade de realizar suas funções laborais prévias, depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.
O impacto nos familiares e cuidadores
Outra variável importante para ser analisada é o impacto da síndrome nos familiares e cuidadores. Eles vivenciam o internamento dos seus entes queridos, também são expostos às incertezas, ao sofrimento e à dor vivenciados pelos pacientes, porém sob outra perspectiva.
Essa vivência também pode gerar sequelas, tais como depressão, ansiedade, luto mal resolvido, além de instabilidades financeiras.
Os custos do internamento hospitalar, somados à redução dos rendimentos — seja pelo fato de o paciente ser o principal provedor financeiro, seja por o cuidador ter de reduzir sua carga de trabalho para assumir os cuidados do paciente durante a fase de reabilitação — geram um impacto gigantesco no orçamento dessas famílias.
Como prevenir a síndrome pós-UTI
A prevenção começa levando em consideração os fatores não modificáveis, potencialmente modificáveis e modificáveis.
Se um paciente mais frágil interna na UTI, necessitamos de um olhar direcionado, entendendo que esse paciente apresenta um risco maior de apresentar perdas funcionais durante a fase crítica.
A gravidade clínica é um fator de difícil manejo, pois, mesmo com um cuidado especializado, o paciente pode apresentar disfunções orgânicas e maior demanda de suporte avançado.
O ponto mais importante da prevenção é um cuidado focado na redução das perdas funcionais e início precoce da reabilitação. Na prática, isso significa:
- mobilizar o paciente o mais rápido possível – o termo “precoce” pode induzir a um erro, já que precoce seria antes do tempo, antes de o paciente ter condições clínicas; devemos realmente iniciar a reabilitação o mais cedo possível.
- evitar sedação profunda durante o internamento;
- garantir uma nutrição adequada, com atenção especial ao aporte de proteínas;
- controlar o ambiente, com preservação do ciclo de sono do paciente;
- manter a utilização dos óculos, aparelhos auditivos, próteses dentárias e outros dispositivos do paciente
Como é feito o tratamento
O tratamento da síndrome pós-UTI demanda um cuidado especializado e multidisciplinar, com a construção de metas claras e factíveis.
O primeiro passo é a estratificação objetiva do paciente, para entender o nível de dependência e perda funcional causada pelo internamento. É necessário a utilização de escalas para avaliação de:
- força da musculatura apendicular e da musculatura respiratória;
- grau de dependência para o autocuidado;
- grau de mobilidade, até mesmo no leito;
- condição cognitiva, de ansiedade e de depressão.
Após essa estratificação inicial, é possível construir o plano de reabilitação, com a definição das metas, alinhamento das expectativas com o paciente e seus familiares e seguimento próximo com reavaliações frequentes — assim podemos entender melhor o curso da reabilitação.
Perguntas frequentes
O que é síndrome pós-UTI?
É a perda funcional induzida pela enfermidade crítica aguda, que se manifesta em perda de força muscular, fraqueza da musculatura respiratória e perdas cognitivas e psicológicas, podendo afetar também familiares e cuidadores.
Quais são os fatores de risco?
Dividem-se em não modificáveis (funcionalidade e comorbidades prévias),
potencialmente modificáveis (gravidade, ventilação mecânica, bloqueador neuromuscular, drogas vasoativas, tempo de internamento) e modificáveis (assistência e início da reabilitação).
Como prevenir?
Mobilizando o paciente o mais cedo possível, evitando sedação profunda, garantindo nutrição adequada com atenção às proteínas, preservando o ciclo de sono e mantendo óculos, aparelhos auditivos e próteses em uso.
